quinta-feira, 17 de maio de 2012

A Vida e o Nado do Anjo


Perco-me neste momento
e encontro-me por você,
e, com você,
mergulho no asfixiante líquido,
atravesso a diáfana superfície e
submirjo, ansioso, em desconhecido universo.

Desconstruo-me neste momento
e projeto-me por você,
e, com você,
procuro o atmosférico alimento,
resisto à atração vertical e
flutuo, persistente, sobre agitado meio.

Diminuo-me neste momento,
e engrandeço-me por você,
e, com você,
rodopio em fugazes bolhas,
brinco na aparente leveza e
sorrio, surpreso, com pequenas vitórias.

Anestesio-me neste momento,
e sinto-me por você,
e, com você,
percebo meus condicionados movimentos,
venço meus aparentes limites e
recebo, satisfeito, o esperado reconhecimento.

Calo-me neste momento,
e escuto-me por você,
e, com você,
ouço meu vigoroso pulsar,
abandono minha remota insegurança e
comemoro, eufórico, a sonhada conquista.

domingo, 23 de outubro de 2011

O Nosso Reencontro


Vidas que carregam singulares histórias,
transladam livres por caminhos paralelos,
crescem, num vai e vem incessante,
tateando, avançando, tropeçando, caindo e levantando.

Idealizando, persistentemente, em onírica imensidão,
constroem destinos, forjados em deslizante e fugidia realidade.

Acontecimento que gera convergência,
cruzamento coincidente num único ponto,
suspensão do tempo e do espaço,
memórias, percepções, conteúdos, flashes revisitados.

Embriagando, compassivamente, em árida maturidade, 
enternecem seres, nostálgicos de um lúdico e lírico passado.

Reconhecimento que recupera bagagens,
descobertas do hoje, expectativas para o amanhã,
personalidades conquistadas, aceitas,
máscaras descartadas, novas marcas, traços e sulcos.

Escancarando, deliciosamente, em largos sorrisos,
alimentam almas, famintas deste doce e divino néctar.

Reminiscências que sobram indeléveis,
desejo de transformação, transitório em permanente,
perpetuar momentos, eternizar sentimentos,
penetrantes olhares, longos abraços, beijos suaves.

Um êxtase invade, espalha, domina e traz a certeza,
resgatamos uma fagulha do eterno perdida na imensidão do efêmero.

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Torpor, Dor e Despertar


Um novo despertar
o esvanecer da dormência
torpor transitório
o alvorecer do desafio
nunca o mesmo, nunca igual...

Um doloroso degrau
o espreitar da insegurança
coragem esquiva
o acenar do dia
nunca o mesmo, sempre igual...

Uma mesma continuidade
o recobrar dos sentidos
percepção germinante
o limiar do automatismo
sempre o mesmo, sempre igual...

Uma nova chance
o olhar do espelho
luz refletida
o reconhecer da face
sempre a mesma, nunca igual...

Um nostálgico desejar
o escorrer da ampulheta
confiança conquistada
o iluminar do futuro
diferente, eternamente...

Imagem extraída da Tela: "O Grito" de Edvard Munch

sábado, 20 de agosto de 2011

Meu Pai

  

Chego e estranho o meu mundo,
recolhe-me em seus braços,
entrega-me sua presença,
reinicio o meu aprendizado.

Choro e procuro a sua figura,
tranqüiliza-me sua proteção,
enternece-me seu amor,
desenvolvo a minha segurança.

Cresço e busco o meu norte,
ilumina-me sua retidão,
lapidam-me seus exemplos,
construo os meus alicerces.

Tropeço e chamo o seu apoio,
sustenta-me sua compreensão,
ergue-me sua serenidade,
forjo a nossa amizade.

Desabrocho e enxergo a sua humanidade,
sensibiliza-me seu afeto,
emociona-me sua pureza,
eternizo a minha admiração.

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

A Última Noite

    

Mergulho na noite e abandono toda angústia,
etéreo, nado no mar do devaneio,
projeto braçadas que retalham o ar,
flutuo e escarneço do meu passado rastejante.

Subjugo a gravidade e a leveza me inebria,
atrevido, desafio as leis da matéria,
sinto a brisa que afaga minha pele,
deslizo e venço as correntes dos meus impulsos inferiores.

Rodopio no vazio e sorrio de mim mesmo,
destemido, contraio e expando em espiral,
inspiro e lanço-me numa queda vertical,
resvalo a superfície do obscuro e decolo novamente.

Percebo múltiplas direções e invade-me a felicidade,
infantil, brinco com o tempo,
viajo num espaço que é somente consciência,
encontro com meu ontem e reconheço o meu amanhã.

Não acordo...

Acaba minha noite, última,
encontro a minha transição.
Chega minha hora, exata,
preparo a minha partida.
Alvorece meu dia, eterno,
celebro o meu despertar.


Tela: "Der Mond ist Guter Dinge", de Max Ernst

sexta-feira, 29 de julho de 2011

Lutadores Selvagens, Espectadores Carnívoros


Sucumbe a poesia.
Desta vez, me dou por vencido, o tema draga o lirismo e soterra a forma.
Um final de tarde, solidão, e o vazio é preenchido por desoladora notícia - "campeonatos de vale tudo lideram audiência com índices avassaladores".
É notório, a televisão já abdicou de qualquer tentativa de apresentar algo minimamente decente. Os poucos, que ainda sentem sede, aplacam suas necessidades em raros e preciosos oásis, de sensibilidade, incrustados numa desértica imensidão, de brutalidades.
Essa incômoda realidade já não espanta ninguém que não tenha desistido do doloroso, e cada vez mais incomum, ato de pensar e vasculhar para além das aparências. O amargo pesar nos invade mais intensamente quando olhamos ao redor e percebemos a que nível de ignorância podemos chegar.
Reflito com mais cuidado e pondero uma possibilidade ainda mais humilhante. Talvez estejamos iludidos, reféns de uma auto-dissimulação. Acreditamo-nos cada vez mais evoluídos e refinados e, em verdade, ao longo dos séculos, rastejamos, selvagens, da mesma forma e no mesmo lugar.
Recebemos o raio divino que se chama razão, mas não conseguimos nos livrar dos nossos instintos mais primitivos. Construímos nossas modernas metrópoles, mas ainda vivemos a lei da selva.
A apatia das almas esteriliza o solo de onde deveríamos colher forças para lapidar, dia a dia, os nossos toscos automatismos, verdadeiras chagas que carregamos tão orgulhosamente. Vamos assim gangrenando cérebros com esta altivez, tão contagiosa e tão voraz quanto a lepra.
Escravos, de nós mesmos, continuamos emitindo rugidos desvairados aos gladiadores do presente, os mesmos do passado. Sorvemos o inebriante sangue derramado com um prazer que nos arrebata desta nossa triste condição, nossa mais pura miséria. A pobreza resultante de uma egocêntrica vida de medo, de dúvida, de apatia e do mais absoluto desconhecimento, do todo e de nós mesmos.
Experimentamos um despercebido autismo às avessas. Evoluímos nossa capacidade de envernizar e dar brilho ao nosso exterior, mas, por dentro, a podridão avança de forma desenfreada sobre nossas entranhas.
Intelectos cada vez mais desenvolvidos para o utilitarismo e, estagnadas, maturidades rudimentares de espíritos que ainda engatinham. Corpos tenazes, animados por almas letárgicas, e membros desenvolvidos, articulados em estruturas acéfalas.
E seguimos assim, satisfeitos, como hienas que, em bando e sorridentes, assistem à luta e o sangue derramado entre presas e predadores e, ao final, vão ao delírio, contentado-se e extasiado-se com os restos, roendo, ensandecidas, o que restou da carcaça do selvagem abatido.
   

domingo, 24 de julho de 2011

A Espiral da Existência


O desprender da fagulha, semente latente,
inconsciente, rudimentar, dorme profundamente.
O dominar dos instintos, motor visceral,
repetitivo, incessante, age mecanicamente.

O desabrochar da individualidade, unidade ilusória,
racional, egóica, desperta parcialmente.
O construir da memória, realidade intangível,
progressiva, unilateral, acumula incessantemente.

O desenvolver da intelectualidade, consciência pessoal,
cética, altiva, elabora presunçosamente.
O cultuar da matéria, solidez aparente,
densa, perecível, impera capciosamente.

O hedonizar dos sentidos, sensação grosseira,
poluta, viciosa, comanda perversamente.
O idolatrar do eu, centro universal,
selvagem, umbilical, suga impiedosamente.

O aproximar da dor, aviso celeste,
paciente, preciso, sensibiliza amorosamente.
O desafiar da morte, transição necessária,
aterradora, implacável, questiona inexoravelmente.

O retratar do pensamento, lógica humana,
fenomênica, insuficiente, repousa sabiamente.
O eclodir da fé, certeza metafísica,
racional, pressentida, compreende espiritualmente.

O transcender da sensibilidade, intuição divina,
penetrante, absoluta, expande universalmente.
O emancipar do arbítrio, vontade transformadora,
sistemática, propulsora, purifica gradualmente.

O contagiar do amor, lei maior,
unitivo, compassivo, ilumina completamente.
O extasiar da união, essência única,
equilibrada, sublime, vibra harmonicamente.

domingo, 10 de julho de 2011

Uma Vida em 7 dias


Seu chamado e uma dolorosa visão,
estremecem estruturas de minha solidez verossímil.
Seu toque e um doce reencontro,
aceleram batidas de meu coração fragilizado.
Seu afago e uma suave sintonia,
vibram fibras de meu amor despertado.

Sua voz e um pedido infantil,
completam vazios de meus espaços desconhecidos.
Seu sorriso e uma feição pueril,
cicatrizam sofrimentos de minhas chagas possíveis.
Seu olhar e um beijo angelical,
enternecem entranhas de meu ventre paterno.

Sua lágrima e uma dor reprimida,
fortalecem pilares de minhas crenças desafiadas.
Sua respiração e uma agonia padecida,
debilitam forças de minhas imperfeições persistentes.
Seu pulsar e um batimento limiar,
libertam apegos de meu ego decadente.

Sua vida e um egrégio exemplo,
perfumam campos de nossa inodora existência.
Sua trajetória e uma grandiosa vitória,
ensinam passos de nossos incertos caminhos.
Sua missão e uma purificada essência,
iluminam trechos de nossos inexoráveis destinos.

A sua chegada e a sua partida, avassaladora passagem,
breves dias, escorregadias horas, efêmeros segundos...
...marcas eternas, divina transformação.


Para Ana Luiza, um anjo que passou pela minha vida

sábado, 2 de julho de 2011

Se Eu Pudesse Flutuar


O corpo, da densidade da ignorância,
aprisiona a minha alma infantil.
O vale, das lágrimas da depressão,
atrai a minha massa passiva.
A terra, da aridez do pessimismo,
arranha os meus pés inseguros.

Ai de mim, que sonho me curar,
que seria de mim, se pudesse flutuar.

O calor, da inclemência da inveja,
arde a minha pele delgada.
As pedras, da rigidez da impaciência,
dificultam o meu caminho incerto.
O aço, da tenacidade da vingança,
retalha a minha carne pútrida.

Ai de mim, que sonho me curar,
que seria de mim, se pudesse flutuar.

O frio, da gelidez da ansiedade,
petrifica os meus membros debilitados.
O vento, da frieza do ódio,
arrepia os meus pelos assustados.
As águas, da persistência da mágoa,
inundam o meu peito sufocado.

Ai de mim, que sonho me curar,
que seria de mim, se pudesse flutuar.

O fardo, do peso da culpa,
verga os meus ossos fragilizados.
Os espinhos, do aguilhão do medo,
perfuram os meus olhos vacilantes.
O escuro, do âmago do desespero,
encaixota o meu corpo derrotado.

Ai de mim, que sonho me curar,
que seria de mim, se pudesse flutuar.

Percebo a minha realidade,
e subjugo o meu orgulho.
Enxergo a minha condição,
e derroto a minha arrogância.
Reconheço a minha pequenez,
e esquartejo o meu egoísmo.

O fim da minha miséria,
e a regeneração de todas as minhas feridas.
Feliz de mim, que posso me curar.

O ocaso do meu ego,
e o alívio de todo o meu peso.
Agora sei que posso flutuar.


Tela: "A Queda de Ícaro", de Marc Chagall

sexta-feira, 24 de junho de 2011

Prisioneiros das Sombras


Em região abissal, escuridão parcial
Sensações embotadas, incertos propósitos
No negro subterrâneo, contornos humanos
Luzes externas, visões de sombras

Em corpos esparsos, tenazes argolas
Movimentos restritos, subjugada vontade
No cativeiro sutil, dóceis reféns
Almas atraídas, melada ignorância

Em jaulas imaginárias, mentes inertes
Personalidades moldadas, única forma
No ar rarefeito, sufocar voluntário
Respiração limiar, consciência passiva

Em fuliginosa atmosfera, despercebida imundice
Obstruídos poros, atróficos sentidos
Na mayávica realidade, sonho opressivo
Ladina ilusão, entorpecida intuição

Em desconhecida existência, dissimulado logro
Estrépita aparência, silenciosa essência
No solo infértil, submisso vegetar
Resignado torpor, semente de dor

Em açoitada carne, exaurida resistência 
Limítrofe estado, lucidez emergente
Na verdade buscada, liberdade desejada
Olhar vertical, claridade vislumbrada

Em degraus derrotados, ascensão conquistada
Persistentes esforços, desejo motor
Na escarpada escalada, irrompida casca
Irradiada luminosidade, dissipada obscuridade

E, pelos séculos, continua ecoando...
...assim como na treva não há visibilidade, na ignorância não há verdade

domingo, 29 de maio de 2011

Dialética Interior


Circunspecto, atento em demasia, crítico contumaz de mim mesmo,
vivo em incessante dialética interior.

Interminável vai e vêm, sensações e racionalizações,
fluir e refluir, cognições e intuições.

Não repouso, não me entrego, não aceito facilmente,
desvio dos fáceis caminhos, ignoro os sedutores chamados.

Não consigo sentir esta vida como um ciclo fechado,
com começo, meio e fim.

Difícil, doloroso, e muitas vezes dilacerante,
viver com os pés na terra e a cabeça no céu.

Meu olhar descola do aqui como uma pipa,
que, inadvertidamente, alça vôo e se faz rebelde em ser comandada.

Carrego as minhas certezas,
todo tangível é perecível, todo sensível é ilusório, todo instante é efêmero.

Olho então ao longe e busco sempre o eterno,
me desapego das circunstâncias, do raso aqui e agora.

Notícias mudam de protagonistas,
mas apresentam sempre os mesmos medíocres assuntos.

Programas buscam atrair a atenção,
mas enaltecem insistentemente o pior dos piores.

Leituras rasteiras, diversões vulgares,
prazeres frívolos e tão previsíveis.

Notoriedade desejada, cobiça por poder,
holofotes que brilham sobre pessoas que nada tem a dizer.

Assim os dias passam, esta existência se esvai, e,
se num susto chega um tardio despertar, junto a angústia, não há como voltar atrás.

Toda essa esquizofrenia me enjoa e, por simples senso de preservação,
vou me alienando dessa casca de realidade, conscientemente.

Não quero e rejeito a morfina que despejam sobre mim,
não preciso de falsos alívios para dores que não sinto.

Presto atenção ao que me desafia,
não ao que dissimuladamente me conforta, me distrai, me entorpece.

A massa me sufoca, levanto a cabeça, desgarro da boiada,
ouso pensar, e muitas vezes sofro, mas não desisto.

Ando no lodo, mas não aceito a sujeira,
procuro enxergar as verdadeiras pérolas, ocultas para os olhos do vulgo.

Tento manter limpa a minha tela mental,
energias puras destilarão as minhas impurezas.

Uma única vida, gota no oceano da existência,
não desvia a minha agulha do meu norte.

Não está aqui a chegada, somente o caminho,
ensaio passos firmes, procuro a direção certa.

O hoje foi projetado ontem,
o amanhã é construído no agora.

Não batalho por posses, pois jamais serão minhas,
o que é de fato meu não pode me abandonar, ou ser por mim abandonado.

Tudo o que é denso deixarei aqui,
o etéreo levarei comigo, para onde quer que vá.

Não anseio bens efêmeros, mas conquistas perenes,
o que adquiri para meu ser e passou a fazer parte de mim, para sempre.

Dedico a esta breve existência os meus cuidados, a minha estima,
mas luto para não me vergar aos seus caprichos infantis.

Investigo a sua essência, tento viver e não simplesmente sobreviver,
quero torná-la reta e útil para poder seguir, em paz.

Descarto máscaras, me rebelo e não me submeto,
Fujo do cativeiro de uma superficial e falsa personalidade.

Busco descobrir a mim mesmo,
se não conheço o meu ser, vivo uma quimera.

Quero me conduzir verdadeiro, humano,
seguir o meu coração e não as vozes da multidão.

Não quero atuar, dissimulando num palco uma felicidade ilusória,
coberto por um verniz feito de palavras vazias e crenças irrefletidas.  

Não aceito ser escravo do meu amor-próprio, ter medo de ser eu mesmo,
quero acertar os meus próprios acertos e errar os meus próprios erros.

Quero viver, não para fazer os outros acreditarem que vivo,
mas para que eu possa acreditar em mim mesmo.


Tela: "Do Alto", de Patricia Cooke

segunda-feira, 16 de maio de 2011

Apologia das Rugas



Alternar de estações
Nascimento, crescimento, envelhecimento e morte
Grande ciclo, interminável espiral

Lucidez fugidia procura a realidade, encontra a ilusão
Consciência entorpecida anela o permanente, experimenta o transitório
Alma negligente desconhece a essência, obedece à aparência

Dolorosa visão...

Pernas trôpegas seguindo o devaneio
Braços trêmulos agarrando o efêmero
Mente alienada idealizando o aspecto

Engano vulgar
Apego impossível
Desejo infértil

Inexpugnáveis, os dias seguem
Obstinados, os instintos lutam
Abençoados, os tropeços ensinam

Cada passo, uma marca
Cada dor, uma linha
Cada superação, um sulco

Ocultar ou mostrar a marca
Rejeitar ou aceitar a linha
Transfigurar ou manter o sulco

Olvidar caminhos trilhados?
Depreciar obstáculos enfrentados?
Descartar êxitos conquistados?

No despertar da consciência...

Condicionado, o olhar se aprofunda
Descoberta, a sensibilidade se depura
Estimulada, a percepção se aguça

Toco marcas que me comovem
Resvalo linhas que me enternecem
Afago sulcos que me assossegam

Respeito todas as marcas
Admiro todas as linhas
Reverencio todos os sulcos

Toda a minha história, desenhada, pintada e esculpida...em mim mesmo


Imagem extraída da Tela: "Auto Retrato" de Lucien Freud

domingo, 8 de maio de 2011

Teofania




Olho e não vejo
Toco e não sinto
Ouço e não escuto

Cresço e enfraquece-me o medo
Ateízo e completa-me a incerteza
Intelectualizo e domina-me a ignorância

Busco e não encontro
Vôo e não pouso
Navego e não ancoro

Aqueço e invade-me o frio
Completo e avassala-me o vazio
Cerco e sinto-me só

Distraio e não repouso
Gozo e não sacio
Embriago e não esqueço

Encolho e toma-me a dor
Clamo e contagia-me a angústia
Grito e volta-me o silêncio

Onde Tu estás?

Vagueio e retardo
Corro e extenuo
Choro e purifico

Curvo-me e me elevo
Esqueço-me e me recordo
Diminuo-me e me engrandeço

Rogo e recebo
Desperto e renovo
Creio e fortaleço

Descubro-me e me humanizo
Aceito-me e me estruturo
Desafio-me e me transformo

Auxilio e por Ti sou sustentado
Cuido e por Ti sou curado
Amo e por Ti sou iluminado

Olho e Te vejo
Toco e Te sinto
Ouço e Te escuto

Agora sei...
Eu estou em Ti, e Tu estás em mim!


Imagem extraída da pintura "A Criação de Adão" de Michelangelo Buonarroti

domingo, 1 de maio de 2011

O Casamento Real


   
Acordo, sigo para mais um dia. Dia ordinário.
Surpreso, percebo, sou exceção. Dia especial, casamento real.
Real? Realidade ou fantasia?

Dois estranhos, país distante, costumes distintos.
Estranhos? Não. Príncipe e Princesa.
Agora sim, sinto-me mais próximo, quase íntimo.

Um lunático.
Não vi e não ouvi.
Lunático convicto.

Casamento, união, intimidade, crescimento a dois.
Milhões de seguidores.
Desenfreados comentários, sedentas fotografias, ininterruptas notícias, único assunto.

Tolo, julgava importante o vínculo afetivo, o bem querer, a amizade.
Parece que devo ter andado enganado, pela vida toda.
Não escapo, feroz desconforto.

Tanta atenção, luzes, olhares. Obra teatral de dimensões globais.
Palco estéril de arte.
Enquanto isso, carentes esquecidos, abandonados, no escuro.

Mas a massa humana segue, letárgica, quase rastejante, na busca pelo seu ópio.
Verdadeiros súditos, reverentes, subservientes. Êxito absoluto.
Esqueceram, por mais um dia, das suas necessidades, dos outros e de si mesmos.

Perdi, escolhi conscientemente abandonar tudo isso.
Curioso, parece que crescemos e ficamos órfãos das antigas fábulas infantis.
A nostalgia e o vazio são aplacados então com fábulas da realidade.

Noite se faz.
Atravessarei o sono ignorante de toda celebração.
Sonharei só, solidão voluntária.

Conseguirei acordar? Enfrentar o dia seguinte?
Aceito o desafio e sigo, com ao menos uma única esperança...
Que tenham nos poupado do "...e foram felizes para sempre".